
Caroline Veilson (Porto Alegre, Brasil, 1993) é artista visual cuja pesquisa se inscreve no campo ampliado da gravura, articulando procedimentos que tensionam as relações entre memória, cotidiano e tempo. Seu trabalho se estrutura a partir da coleta, deslocamento e reinscrição de objetos e vestígios, compreendidos como dispositivos que operam entre presença e ausência, instaurando imagens marcadas pela instabilidade e pela latência.
É mestre em Poéticas Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2023) e licenciada em Artes Visuais pela mesma instituição (2018).
Realizou exposições individuais e coletivas em instituições como o Museu do Trabalho (Porto Alegre), o Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo (Pelotas), o Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul e a Galeria Ibeu (Rio de Janeiro), além de participar de mostras no Brasil e no exterior. Recebeu o prêmio aquisição no 23º Salão de Artes Plásticas da Câmara Municipal de Porto Alegre (2022) e foi premiada como artista destaque no 12º Prêmio Açorianos de Artes Plásticas (2019).
Atualmente representada pela Gaby Indio da Costa Arte Contemporânea (Rio de Janeiro) e pela OÁ Galeria (Espírito Santo).
Sobre a Pesquisa
Minha pesquisa artística investiga as relações entre memória, afetividade, cotidiano e tempo, articulando procedimentos da gravura, da pintura, da costura e da escrita como campos complementares de reflexão e criação. Desde meus primeiros trabalhos, estruturo minha pesquisa a partir da observação e da coleta de objetos, folhas e vestígios encontrados na cidade e em lugares afetivos, compreendendo-os como documentos de trabalho e portadores de memórias que transitam entre o individual e o coletivo.
Esses objetos — muitos deles antigos e pertencentes a outras famílias ao longo de gerações — são incorporados à minha prática como formas de apropriação e deslocamento. Ao retirá-los de sua função original e reinscrevê-los no campo da arte, investigo sua permanência como existências estéticas em um espaço-tempo no qual presença, ausência e memória se entrelaçam.
Nos primeiros desdobramentos da pesquisa, trabalhei com gravura em litografia, litografia waterless e monotipias. Paralelamente, passei a fabricar artesanalmente meu próprio papel, atribuindo ao suporte um papel ativo no processo poético. Produzidos a partir de fibras de bananeira, esses papéis apresentam baixa gramatura, leveza e transparência. O papel deixa de ser apenas suporte para tornar-se parte da obra, uma pele sensível que recebe as marcas do tempo e do gesto.
A partir de 2020, com o isolamento social devido à pandemia de Covid-19, passei a observar de forma mais atenta a relação entre luz, espaço e objetos cotidianos. Desse encontro surgiu um interesse central pela sombra como imagem transitória e instável. Compreendo a sombra como um duplo do objeto, um vestígio que se forma pela interposição entre a fonte de luz e a superfície, operando como signo simultâneo de presença e ausência.
Nesse processo, incorporo materiais e procedimentos disponíveis no cotidiano doméstico, como a máquina de costura, a datilografia, e o papel de livro. A repetição de pontos em zigue-zague, realizados com a máquina de costura, passa a ocupar áreas antes preenchidas pela sombra dos objetos, criando regiões densas onde desenho, texto e gesto se sobrepõem. A repetição, mediada pelo uso de máquinas, opera como estratégia formal e conceitual, instaurando variações mínimas que evidenciam o tempo do fazer.
A costura assume um papel central na minha pesquisa. O fio atua como marcador de tempo e gesto ritualístico, repetido, mas nunca idêntico. Cada ponto tensiona a superfície do suporte, evidenciando sua fragilidade.
Atualmente, minha pesquisa se configura como um campo expandido entre gravura, pintura, costura e escrita, no qual objetos, sombras e materiais ordinários são constantemente reativados como dispositivos de memória e atravessamento.